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por Airton Gontow

Já contei essa história, como parte de uma reportagem que publiquei sobre Jamelão (12 de maio de 1913 – 14 de junho de 2008), a primeira delas no jornal “O Liberal”, do Pará, com situações que vivemos juntos.

Agora, em tempos de coronavírus, tenho lembrado muito da vez em que Jamelão, em pleno palco, decidiu revelar de uma vez por todas porque não gostava de dar a mão para ninguém!

Além de grande cantor – de sambas-enredos antológicos e de pérolas da Música Popular Brasileira, especialmente de Lupicínio Rodrigues – Jamelão, percebo agora, foi também
um revolucionário de costumes…

Jamelão: momento captado pelo fotógrafo Heudes Regis

JAMELÃO EXPLICA PORQUE NÃO DÁ A MÃO…

De cima do palco, Jamelão não percebeu de imediato o braço estendido. O homem pegou na barra da calça do famoso sambista carioca e puxou-a, com relativa força. Jamelão olhou, olhou, mas não teve a provável reação zangada. Inclinou o corpo e pegou o bilhete. Não satisfeito, o homem burlou a segurança, subiu no palco e logo se aproximou de Jamelão, novamente com o braço estendido.

Temi pelo pior e imaginei que Jamelão empurraria ou no mínimo passaria um pito histórico no intruso. Jamelão olhou, olhou e, finalmente, estendeu a mão para o aperto pedido pelo homem.

O sujeito desceu do palco e Jamelão prosseguiu cantando: “maestro, músicos, cantores, gente de todas as cores, faça um favor pra mim…”

Matéria de Airton Gontow publicada no jornal “O Liberal”, do Pará, após a morte de Jamelão.

Ao final da canção de Lupicínio Rodrigues, interrompeu os aplausos e disse: “Há pouco quase não dei a mão para aquele homem que subiu aqui no palco. Mas logo imaginei que no dia seguinte os jornais diriam: ‘o Jamelão é antipático’, ‘o Jamelão é isso, o Jamelão é aquilo’. Além disso essa música é tão bonita que não valia a pena interrompê-la. Por isso retribuí o cumprimento, mas agora eu vou contar por que não gosto de dar a mão para ninguém que não conheço: em 1963 eu ia para o morro da Mangueira quando começou a chover. Busquei abrigo em um ponto de ônibus. Havia um homem de costas, fazendo xixi em um barranco. Quando terminou, virou-se, me viu e gritou: ‘Jamelaaaaão!!’ E veio em minha direção, com a mão aberta. Então eu falei: ‘sai pra lá! Você estava pegando no seu e agora que me dar a mão!’ Depois disso pensei: sou um homem público. Aquele tipo eu vi onde estava com a mão antes. Mas dos outros não vejo. De repente, aquele sujeito que está agora sentado lá na frente tomou umas cervejas a mais, foi ao banheiro, não lavou as mãos, saiu, veio até o palco, subiu e tive de pegar no dele por tabela”, disse Jamelão, para ser ovacionado pela plateia.
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Airton Gontow é jornalista, cronista e diretor do site de relacionamento Coroa Metade (https://www.coroametade.com.br).

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